Imagine você que está no Largo do Pechincha, curtindo o prazer daquelas crianças a correr e suar. Todo o recreio que a vida lhes proporcionava. Conhece o que é uma infância cantada; consegue lembrar o que é a infância quando é o fim do dia. Não são os detalhes das mães e das filhas, nem os uniformes desbotados, nem os olhares dos garotos a jogar bola, sempre ferozes e incendiários, nem os sapatos das menininhas vaidosas, os cabelos, as saias, os cheiros, os perfumes. Nada disso. Não falo nem da escola, que é belamente precária; restrinjo-me a descrever um careca, a careca deste rapaz que rege a escola com competência e sensibilidade.
Chama-se Adolfo da Costa; tem 47 anos, ou aproximadamente isso. Nasceu em Cascadura, ou em algum lugar por ali. É bom administrador e boa alma; todos os alunos gostam dele. Seu Adolfo é o nome das ruas; e dizer das ruas e ser famoso é o mesmo para quem é carioca. “Quem dirige a escola é Seu Adolfo”. Era o tempero ideal para a imaginação popular e romanesca das redondezas. Seu Adolfo rege o circo! Quem não conhecia o Seu Adolfo, com o seu ar sério, sobrancelhas franzidas, lábios deprimidos e andar desarrumado? Tudo era potencializado na escola; então sua alma sobrevoava por toda a matéria e gestos do homem; as sobrancelhas enrugavam-se, o andar quebrava-se; era ele. A escola era dele.
Fim das aulas; é como se houvesse fim uma luz espiritual e deixasse as crianças com um clarão em suas peles. Eis então aquele que desce ao pátio, apoiado por sua curvada postura; vai ao encontro dos pais beijar suas mãos e encontrar seu lugar embaixo das árvores. Tudo de maneira original e expressiva. Conversa, sai, caminha pela Avenida Geremário Dantas, onde se encontra com um velho negro, Seu João, que é seu verdadeiro confidente, e que neste momento troca informações com alguma mãe.
- Lá vem Seu Adolfo – diz a mãe.
- É... A gente se fala, Glória, até amanhã.
Seu João deu um salto, caminhou em direção a Seu Adolfo e esperou algumas palavras, que daí a pouco estariam confortavelmente instaladas dentre a tarde amargamente nublada. A escola não era boa naturalmente; nem competente. Não tinha o menor vestígio de profissionalismo, eficiência ou caráter, nem professores que surpreendessem, nem bons alunos, nem mesas e cadeiras seguras. Escola sombria e pesada. O mais feliz era um quadro negro, onde o Seu Adolfo escrevia algumas condolências, pensando. Sob a mesa, deitados, vários trabalhos entregues; todos medíocres.
Ah! se Seu Adolfo pudesse seria um grande pintor. Pelo que dizem há dois tipos de talentos, os das letras e os que não as possuem. Os primeiros verbalizam-se; os outros são um embate cruel e sanguíneo entre a consciência interior e a ausência de um símbolo para a humanidade. Adolfo era desses aí. Possuía o dom para as artes plásticas; trazia consigo as cores e as nuances, um universo de harmonias brilhantes e criativas, que não tinha a ousadia de colocar em um papel ou tela. Esta era a causa da tristeza de Seu Adolfo. Claro que o povo não concordava com ela; uns afirmavam isso, outros aquilo: frescura, falta de mulher, dificuldades financeiras; mas eis a verdade: - o motivo da melancolia de Seu Adolfo é não poder pintar, não ter como se expressar. Longe de deixar de brincar com telas e dialogar com seus pincéis, durante dias; mas tudo era inconstante, sem padrão ou beleza. Ultimamente tinha até receio de dar as caras na rua, e desistia de tudo.
E, porém, se tivesse a oportunidade, finalizaria ao menos um quadro, um expressionista, começado dois dias depois de ter iniciado um namoro, em 1996. A moça, que tinha então 38 anos, e foi embora com 40, era simpática, pouquinho, mas muito doce, e fazia por ele o que poucos faziam. Dois dias depois de ter começado o namoro, Seu Adolfo sentiu que tinha um motivo para a arte. Imaginou então o quadro expressionista, e quis pintá-lo; mas a arte não se materializava. Como um cão que acabava de ser adotado, e tenta transpor as grades de sua nova prisão, pelos lados, abaixo, impaciente, aterrorizado, assim era a arte de nosso pintor, presa nele para a eternidade, sem uma luz em algum canto da escuridão. Algumas cores chegavam a fazer sentido; ele pintou-as; apenas um rabisco em uma porção da tela. Tentou mais uma vez no dia seguinte, algumas semanas depois, diversas vezes durante o namoro. Após a morte da moça, ele lembrou das cores que faziam sentido e ficou ainda mais arrasado por não ter conseguido colocar no branco a felicidade agora ausente.
Seu João – disse ele ao ver o amigo - , sinto-me mal.
- Você não tem dormido direito, rapaz...
- Não; já me sinto assim há uma semana. Compra um remédio pra mim...
Aguentou a dor durante o dia; e durante a noite suportou bem, com exceção da criada, que mal conseguia descansar. O povo, apenas soube do desconforto, não quis ouvir explicações; quem tinha pernas e bom coração foi visitá-lo em sua casa. Diziam-lhe que era só um mal-estar passageiro, que eram pontadas do tempo; um acrescentava delicadamente que aquilo não era coisa de homem, até uma mancha na reputação feroz do enfermo – outro que eram problemas não resolvidos da infância. Seu Adolfo dava atenção, mas sabia, ele mesmo, que era o fim.
“Tudo acabou”, refletia.
Certa noite, quatro dias após o início das férias escolares, o amigo achou-o realmente deplorável; e foi isso o que realmente sentia atrás das palavras mentirosas:
Já vi muito disso. Não é nada. Precisa parar com essas pinturas ...
Em pinturas! Foi esta palavra do amigo que deu ao diretor a inspiração. Assim que ficou só, solitário, encaminhou-se à tela que guardava desde 1996 com os rabiscos de cores que faziam sentido. Olhou bem para as pinceladas geradas com tanto esforço, mas não concluídas. Teve, então, uma ideia genial: - finalizar agora a pintura, de qualquer maneira; tinha que acontecer, precisava deixar a sua marca no planeta.
Quem sabe o amanhã? Em 2013, talvez achem isto, e falem de um tal Seu Adolfo...
O início do rabisco lembrava um sol; este sol, tão amarelo e simples no seu canto, era a parte definitivamente instalada. Seu Adolfo quis que levassem a tela para o quintal, que dava para um verde sepulcral: precisava de intensidade. Entre as árvores viu um casal de aves, pendurados, com os bicos entrelaçados por cima dos galhos, e as asas libertas. Seu Adolfo chorou de alegria.
Aqueles amam – disse -, eu não. Ao menos pintarei este quadro que eles poderão apreciar...
Ficou em frente à tela; passou a pintar e chegou onde estava o sol ...
Sol, sol, sol....
Não conseguia seguir adiante. E, no entanto, sabia pintar como ninguém.
Amarelo, branco ... azul, verde ... vermelho, cinza...
Nada! Nenhuma arte. Não queria algo genial, mas algum tipo de peça, que lhe fosse original e pessoal. Voltava ao sol, repetia as cores, tentava recordar de um detalhe da felicidade ausente, lembrava-se da moça, daqueles meses. Para manter as nuvens, lançava os olhos às aves penduradas em galhos. Estes se amavam ali, com os bicos entrelaçados e as asas libertas; só que agora eles tinham companhia, não estavam mais solitários: Seu Adolfo, cansado da malemolência e da nulidade, tornava à tela; mas a vista das aves não se transformava em inspiração. As cores seguintes não eram criadas.
Sol... sol... sol...
Sem paciência, largou a tela, pegou o pincel e quebrou-o. Nesse instante, a fêmea, presa nos carinhos do amado, passou a voar livremente, suavemente, como algo raramente visto nem presenciado, na qual o sol brilhava lindamente por trás, justamente a imagem que Seu Adolfo procurara por anos. O diretor viu-a com melancolia, coçou a nuca e decidiu pôr fim à claridade.
segunda-feira, 20 de julho de 2009
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